30/10/2005

com dor


Deixar a paisagem
para entrar no cinza.
Não há horizonte
na cidade de fluxos.

O ar fica para trás.
Aqui já não existe,
não pode ser.
As horas se ocupam
num moto-contínuo.
De nós mesmos
resta pouco.

24/10/2005

ballet



se soubesse dançar as palavras,
tocá-las com a ponta dos pés,
seria bailarina sem fim.

Até encostar o calcanhar no queixo,
dobrar a coluna do verbo.
Rodopios em sintaxes.

A silhueta das palavras
conforme sons da Rússia.
Dentre cisnes e nozes,
formar um poema.

24 de outubro 2005

08/10/2005

velho e a cadeira




foto: thomas bussius


homem paira na calçada. tempo suspenso, nas minas gerais.

07/10/2005

01/09/2005

céu marajoara



céu de julho. na paisagem do Marajó. mar de bubalinos.

31/08/2005

melancolia do abandono




Schiele. artista do corpo cru

enigma da via pela metade




De Chirico
cavalga a tempestade.

ignora seus compromissos e responsabilidades. Pensa mesmo ser livre, mas se engana.

vagueia, trêmula, pelas ruas úmidas de uma cidade sem sentido.

por lentes de acrílico, ensebadas. Nunca consigo ver transparente. uma vida enevoada.

10

para mim: 10 horas. 22, intermináveis horas.

prata, cinza. mumificado. congelado, cingido.

fingimento de consolação.

29/08/2005

tarde

é tarde e meu útero dói bastante agora. (histeria?)
estranho sentir algo de dentro, algo que nunca se percebe e de repente torna-se um incômodo.
não sei para onde caminho quando acordo.
não sei para onde irá a vida, não sei.
pé ante pé, dou passos miúdos.
mas talvez,

"onde quer que o homem pise, ele pisa cem caminhos"

suspenso

Como se a vida não me pertencesse.
Não surgem palavras apropriadas
Falta de expressão, falta a expressão
de tantas impressões.
A vida não me pertence nesta hora.
Meu corpo não é meu,
minha vontade não sabe ser.
Meus olhos são insuficientes
para dizerem minha alma...
Mas me faltam as palavras.
E não há perguntas,
quando se sabe a dificuldade da resposta.
Mais fácil não falar: não se responde o que não se pergunta.

07/08/2005

the fool on the hill

Vê o sol se por.
Vê o tempo passar, sem ao menos se dar conta disso.
Vê a vida chegar, sem que ele a tenha desejado.
Sente o desejo lhe escorrer por entre os dedos, passarem pelos seus olhos.
Ao fundo, onde não podemos enxergar, a linha tênue do horizonte.
Tão difícil.
E talvez... Talvez tudo volte ao mesmo tempo. Podemos considerar, você poderia... poderia?
Voltar para mim, para casa. A casa que você não conhece, não conheceu. A casa que não foi. Sem portas e sem paredes,
sem chão, sem apoio. Não há onde tocar. Construída no vazio. Linhas para os leões.
Essa noite, eu quero falar. Eu preciso falar. Vou explodir.
Solidão, hoje sim. Tão só, tão só. E no meio de tanta gente.
Eu não sei falar o meu coração. E fico só... Eu e a melancolia. (disso estou certa)

tensao

Antes de começar uma fase que não será fácil. Para ninguém, acredito.
Antes de decidir importantes rumos para a vida, antes de dividir algo maior. Mais complexo, mais trabalhoso.
Antes de arcar com algumas consequências complicadas, vindas da novidade.
Novo em casa? Casa nova?
Vida que não é nossa, nem minha ainda. Vida à 6, à 7... à 2?
Antes de cair no olho do furacão dá vontade de chorar. E sair correndo, fugir correndo.
Vontade de escapar e não olhar de frente.

20/07/2005

rugas

rugas e rusgas
preocupações quando empacamos
ficamos presos, presas de nós mesmos
temperaturas menores, diminuem a dinâmica
e a vontade.
duro seguir adiante, quando o interesse... veja bem
vencer este empecílio terrível
agora ou nunca
tem de ser agora.

05/07/2005

Pablo Picasso - "Uma obra de arte"

"Uma obra de arte deve levar um homem a reagir, sentir sua força, começar a criar também, mesmo que só na imaginação.
Ele tem de ser agarrado pelo pescoço e sacudido; é preciso torná-lo consciente do mundo em que vive, e, para isso, primeiro ele precisa ser arrancado deste mundo
."

J. L. Borges - "O escritor"

"O escritor vive.
Ninguém é escritor das oito ao meio-dia e das duas às seis.
Quem é poeta é poeta sempre, e se vê continuamente assaltado pela poesia.
Assim como o pintor é assediado pelas cores e pelas formas, assim como o músico se sente procurado pelo estranho mundo dos sons (o mundo mais estranho das artes), o escritor deve pensar que tudo é argila, com que fará da miserável circunstância de nossa vida alguma coisa que possa aspirar à eternidade."

16/06/2005

mundo pequeno

coisa mais maluca ouvir uma estação de rádio alemã em São Paulo...

O mundo encolheu mesmo...

08/06/2005

difuso sentir

Quando, por alguns instantes, tem-se pouca alegria de viver. Não que não se queira viver, absolutamente, mas que tenhamos menos vontade de...

Tão longe, milhares de quilômetros de distância... Mas distante de onde?

Quando é difícil achar um lugar para si no mundo.

"que todo grande amor só é bem grande se for triste" (Vinicius)

Em todos os sentidos de amar e querer bem. é sempre um pouco triste, sempre um pouco dor, um pouco morte...

Música enche nosso ser de sentimentos, mesmo que estes sejam tão confusos e difusos, incertos e instáveis. Um misto de melancolia, tristeza e euforia para escrever. Tarefa tão complexa e dura de ser cumprida, se quisermos fazer algo que preste (minimamente).

restos

Pouco restou
das horas em branco
em claros panos,
planos caros.

Pouco restou,
palavras curtas,
jogadas na despedida.
um certo abandono

Pouco restou,
corpo estirado,
suor adormecido,
odor da noite.